26/02/2020

1Guardando na prateleira histórias dignas de registo (I)

 Um desafio em Julho de 2008, sobre uma pintura publicada aqui neste mural da minha C(l)ave - Partilha de uma muito querida (4),

um acrílico sobre tela da minha Autora da Capa de Memória Alada -, 
resultou num conjunto de histórias que só me lembrei passados quase 12 anos de recolher para memória, e que são dignas de serem lidas por quem se quiser dar a esse trabalho. 

Seguem-se (1ª parte):

Uma estória (1)

Esta é a minha estória - Por Ni do Branco Escuro  

Esta é a minha estória, neste canto que protege a minha vida… esconde segredos e alimenta sonhos. Acredito na felicidade como dom alcançável e é por isso que tenho estas velas… cuja luz me há-de manter sempre desperta para os subtis sinais da vida.
Ah… e tenho um sapo. Tem os meus olhos pela ternura e esperança com que o olho e assim chegará longe! E este é o meu retrato. Vêem? Sou linda…


Uma Estória (2)

Era uma vez… Por Patrícia do More Than Words

Esta é a história de uma menina órfã de dezoito anos, a quem a vida escolheu como sendo um membro de uma das famílias mais nobres e ilustres da cidade. Maria, de seu nome, prima pela sua grandiosa maturidade, evidenciando um doce e feminino toque que desnuda a sua idade ainda precoce.
Mãe de Maria morreu tinha ela apenas dois anos de idade. Sempre num meio rodeado de criadas e de motoristas, Maria foi aprendendo a viver segundo regras e rotinas que lhe iam sendo impostas.

O pai da menina, eloquente diplomata, sonha uma carreira invejável para a filha, a quem sempre satisfez todas as necessidades económicas e materiais. Carinho e afecto não é linguagem que conste no seu dicionário, aliás, Maria está muito longe de se sentir amada.
Cabelos negros e longos esvoaçam ao sabor da brisa quando passa, a sua silhueta definida pelas curvas bem acentuadas do seu corpo e as excelentes combinações de vestuário modelam-na numa jovem elegante e atraente.
Maria vive quase sem ambição, dado que não é carecida de luxos ou caprichos. Os seus pequenos sonhos são considerados impossíveis. Apaixonada pela natureza, deseja em segredo ser bióloga, algo que nem ousa pronunciar perante a postura inquebrável de seu pai, que insiste numa carreira política.
Apesar de tudo, é uma rapariga sonhadora que idealiza um príncipe encantado montado num cavalo branco que um dia chegará para a vir buscar e para a libertar da sua vidinha de prisioneira. É assim que passa horas e horas a fio num pequeno sótão de arrumações que constitui um local mais discreto à criadagem.
Sente-se bem ali, talvez por ser a única divisão da casa que menos se parece com um museu, em que tudo tem que estar no sítio certo à hora certa.
Maria tinha um pequeno sapo, Greeny. Era com ele que passava grande parte do seu tempo livre no resgatado sótão. Era ele o bom ouvinte dos seus desabafos, problemas e das histórias dos seus sonhos.
Um dia, contagiada pela magia dos sonhos e da fantasia, achou por bem, uma vez na vida, tentar seguir o rumo do seu sentir e deixar-se envolver pela irrealidade dos devaneios.

Olhou Greeny nos olhos, sentiu-o a aproximar e suavemente o colocou na palma da sua mão. Pensou: “Como é que um animal tão pequeno pode significar mais para mim do que a minha família ou até do que as minhas regalias?”. Foi então que se chegou mais de perto, descalçou as luvas para o sentir na plenitude. Fechou os olhos e só o sentia na sua mão, estava rodeada por uma sensação de uma tranquilidade suprema. Aproximou-se ainda mais e teve a leve impressão de ver em Greeny um sorriso. A magia do momento transportou os seus pequenos e doces lábios para a boca do seu sapinho especial. Deixou-se levar e num sopro só sentiu-se envolvida por um abraço reconfortante. Continuou de olhos fechados… Teria chegado o príncipe? Será que era desta que conseguiria fugir para outro mundo num cavalo branco?



Uma Estória (3)

A história n.º 3 é da minha (Fá menor) autoria e já tinha sido atempadamente publicada neste mesmo blogue sob o título: 
Saber Esperar.

17/06/2019

«Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu»

"O provérbio «Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu» é enquadrado por José Alves Reis, em Provérbios e Ditos Populares (Lisboa, Litexa Editora, 1996), na área dos «Conselhos», valor que se depreende a partir da utilização do modo imperativo — em «Não peças» e «nem sirvas» — e do tratamento por «tu» (marca de à-vontade, ou mesmo de familiaridade) usado pelo enunciador à pessoa a quem se dirige.

Com este provérbio pretende-se alertar o outro para as humilhações que, decerto, sofrerá por parte de alguém a quem aquele se dirigiu para solicitar algum favor, ou alguma atenção, evidenciando sinais de necessidade ou de dependência. O conselho incide precisamente na particularidade da pessoa a quem é feito o pedido ou para quem se trabalha (a quem se serve): essa pessoa que, hoje, tem uma posição de segurança e de superioridade está marcada por um passado de pobreza, de submissão e de subserviência. Tendo sido alvo de humilhações ao longo de alguns anos, porque se encontrava numa situação de dependência de outros, passa da posição de vítima para a de senhor(a) da situação, sentindo necessidade de fazer sentir ao outro o mesmo por que passou, mostrando prazer em lhe lembrar a sua posição de inferioridade numa relação em que detém o poder, não deixando margem para qualquer tipo de aproximação que possa vir a pôr em causa a distância que quer demarcar, ostentando total repúdio por atitudes de compreensão ou tolerância.

Este provérbio funciona, quase, como um aviso para que ninguém caia no risco de «ficar nas mãos» de alguém que se envergonhe do seu passado de submissão, porque a vingança no outro, que estará à sua mercê, é a resposta que encontra para apaziguar o seu ressentimento para com um tempo passado, mas não ultrapassado. Assim, todo aquele que lhe pede ou o serve confere-lhe o estatuto desejado (e invejado), o do poder, o que lhe dá oportunidade de diminuir o outro, de o inferiorizar, realidade que conheceu e em que quer colocar os outros." Eunice Marta, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

Pois:
"Se queres ver um pobre soberbo, entrega-lhe a chave de um palheiro.”
e
"Se queres conhecer alguém, dá-lhe poder".

Aquelas pessoas que são genuinamente boas, no momento em que lhes for dado poder acrescido, tal só irá aumentar o seu nível de bondade.

Já quem é mau por natureza, vai usar esta oportunidade para contaminar tudo e todos com o seu mau carácter e maldade.


13/07/2018

Não há duas sem três (agulhas)

Este pretende ser um texto com algum humor (ainda que um pouco negro ou amarelo), a pedido da Chic'Ana.

Gosto de costurar, bordar, fazer tricot e crochet – são algumas das minhas habilidades (algumas outras linhas em que também me escrevo, como costumo dizer). E faço-o em horas de lazer; matando tempos já de si mortos, ou fazendo-os reviver; cuidando com carinho do vício das agulhas instalado, até em horas em que o não deveria ser. Um fado. No quarto (des)arrumado; à lareira na cozinha; no sofá da sala; em frente ao computador; em salas de espera; em espera dentro do automóvel; na praia… uma dor! 

E por vezes, num repente, num levanta e senta, num senta e levanta, são agulhas que desaparecem misteriosamente… onde é que está a agulha suplementar? Ainda há pouco a tive na mão! E reviro tudo: a toalha da mesa, os papéis à volta do computador, as gavetas da máquina de costura, o sofá, o estrado e o enxergão, se preciso for; e de agulha nada, sumiu, o estupor! 

Tem de haver sempre uma outra à mão, não vá o trabalho ficar parado, e o vício estragado. Até que chega uma altura em que elas têm de aparecer. Se não estão em lado nenhum, em algum lugar têm de estar, nem que o sítio mais óbvio tenha de ser outra vez batido, revirado, ou até descosido, desforrado, ou todo desmantelado, agora é que vai ser! E viro o sofá de novo de pernas para o ar, e nada! E volta ao seu lugar. Espera! ouvi qualquer coisa a tinir… e pimba deixa cá ver: torna a virar, agora com mais força, e cai uma moeda de um cêntimo, já ganhei o dia! E por uma fresta de lado enfio a mão, pode ser que encontre outro tostão, ah, ah! Achei a danada, mas não a consigo tirar. Vou buscar uma agulha mais grossa com farpa para a puxar. Consegui! Onde está uma tem de estar a outra!... E mexe, remexe, sacode, “se encosta, se enrosca, se abre, se mostra para mim, me agarra, me morde, me arranha”, me pica, cá estás tu, minha sacana! E vão duas, ufa! “Quem é vivo sempre aparece”, diz o povo, e também: “não há duas sem três”. 

E “às três é de vez”: quando na praia se deixa uma agulha de crochet, em cima da toalha, no trabalho que se está a fazer. Vais dar um mergulho, voltas e sentas-te na toalha. Aaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiii! Espetas a agulha com farpa na nádega. 
– Marido, puxa aqui a agulha! 
O marido, a ficar branco: 
– Como? Isto tem uma farpa, não sai, pode sair carne agarrada, ou algum nervo... não sou capaz! 
– Ai não? deixa cá ver... 
E eu, a quente e a frio, zás! 

Um acto de repentina coragem, que nos valeu uma saída da praia, mais cedo do que o previsto, para ir fazer o curativo. 

Moral da história: Não te preocupes, com as agulha(da)s. Haverá sempre alguma à solta que te espreita em qualquer buraco!

19/02/2014

Para além da curva da estrada


"Para além da curva da estrada
 Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
 E talvez apenas a continuação da estrada.
 Não sei nem pergunto.
 Enquanto vou na estrada antes da curva
 Só olho para a estrada antes da curva,
 Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
 De nada me serviria estar olhando para outro lado
 E para aquilo que não vejo.
 Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
 Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
 Se há alguém para além da curva da estrada,
 Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
 Essa é que é a estrada para eles.
 Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. 
Por ora só sabemos que lá não estamos.
 Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
 Há a estrada sem curva nenhuma."

 Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

03/03/2012

Um poema em formato de crónica

E se, de repente, alguém me oferece... uma publicação importante.... isso É...

... um sopro de ar puro e fresco, que me eleva pelos ares e me faz voar como uma pequena pluma caída de umas frágeis asas.


Um poema é essa recensão que ele escreveu em formato de crónica, roubando-me as palavras todas e deixando-me sem elas para lhe agradecer como deveria.

É muito gratificante ficar a saber que sentem prazer ao ler o que escrevemos e, ainda mais, ao escreverem sobre isso. 

Roubo-lhe agora eu as próprias palavras, que um dia ousou dizer: "Quem me lê, alimenta-me." Bem-hajas, António!

01/10/2011

Outono Queimado


Outono queimado
em fogueiras de pranto
fumos espalhados
rios calados
(m)águas esvaídas
penas estendidas
em chão desolado