segunda-feira, junho 17

«Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu»

"O provérbio «Não peças a quem pediu, nem sirvas a quem serviu» é enquadrado por José Alves Reis, em Provérbios e Ditos Populares (Lisboa, Litexa Editora, 1996), na área dos «Conselhos», valor que se depreende a partir da utilização do modo imperativo — em «Não peças» e «nem sirvas» — e do tratamento por «tu» (marca de à-vontade, ou mesmo de familiaridade) usado pelo enunciador à pessoa a quem se dirige.

Com este provérbio pretende-se alertar o outro para as humilhações que, decerto, sofrerá por parte de alguém a quem aquele se dirigiu para solicitar algum favor, ou alguma atenção, evidenciando sinais de necessidade ou de dependência. O conselho incide precisamente na particularidade da pessoa a quem é feito o pedido ou para quem se trabalha (a quem se serve): essa pessoa que, hoje, tem uma posição de segurança e de superioridade está marcada por um passado de pobreza, de submissão e de subserviência. Tendo sido alvo de humilhações ao longo de alguns anos, porque se encontrava numa situação de dependência de outros, passa da posição de vítima para a de senhor(a) da situação, sentindo necessidade de fazer sentir ao outro o mesmo por que passou, mostrando prazer em lhe lembrar a sua posição de inferioridade numa relação em que detém o poder, não deixando margem para qualquer tipo de aproximação que possa vir a pôr em causa a distância que quer demarcar, ostentando total repúdio por atitudes de compreensão ou tolerância.

Este provérbio funciona, quase, como um aviso para que ninguém caia no risco de «ficar nas mãos» de alguém que se envergonhe do seu passado de submissão, porque a vingança no outro, que estará à sua mercê, é a resposta que encontra para apaziguar o seu ressentimento para com um tempo passado, mas não ultrapassado. Assim, todo aquele que lhe pede ou o serve confere-lhe o estatuto desejado (e invejado), o do poder, o que lhe dá oportunidade de diminuir o outro, de o inferiorizar, realidade que conheceu e em que quer colocar os outros." Eunice Marta, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

Pois:
"Se queres ver um pobre soberbo, entrega-lhe a chave de um palheiro.”
e
"Se queres conhecer alguém, dá-lhe poder".

Aquelas pessoas que são genuinamente boas, no momento em que lhes for dado poder acrescido, tal só irá aumentar o seu nível de bondade.

Já quem é mau por natureza, vai usar esta oportunidade para contaminar tudo e todos com o seu mau carácter e maldade.


8 comentários:

  1. Gostei da explicação do provérbio. E há outro que também me lembrei: "Se queres conhecer o vilão põe-lhe o cacete na mão".
    Uma boa semana.
    Um beijo.

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  2. Gostei da explicaçao do primeiro provérbio, pois fazia-me uma certa confusão.
    Agora entendi melhor.
    Beijinhos
    :)

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  3. Provérbios são a prova duma cultura rica . O meu pai usava um provérbio regularmente quando os netos não tinham arrumado os seus brinquedos : "não vivemos na casa do Jan steen"

    https://es.wikipedia.org/wiki/Jan_Havicksz_Steen

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  4. Este provérbio não podia estar mais correto! Subscrevo na íntegra! Só acrescento, que os bons, já são raros! Porque se deixam contaminar pelo universo dos outros... no quotidiano é observável, os noticiários e programas de investigação não deixam margem para dúvidas. Ao contrário, o mundo teria características diferentes do que conhecemos e nos é dado a ver. Muito bem!

    Amiga Fá, continuações de boa semana, se for caso disso. Espero que sim.

    Beijinhos

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  5. Esse provérbio é bem real.
    Gostei do post, é elucidativo.
    Fá, um bom fim de semana.
    Beijo.

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  6. Boa tarde de paz interior, querida amiga Fá!
    Belo o que partilhou e o Poder nos consome facilmente.
    Deus nos livre de tal disparate tolo.
    Somos pó e nada mais.
    Tenha um final de semana abençoado e feliz!
    Bjm carinhoso e fraterno de paz e bem

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  7. Querida Fá,
    os provérbios são carregados de ensinamento e sabedoria.
    Não conhecia esse, e gostei muito.
    Um abraço com carinho.
    Deus cuide sempre de ti 🌹

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  8. Concordo com o Jaime, é muito verdadeiro...
    Verdadeiro tesouro da sabedoria popular...
    Tudo de bom.
    Beijinho
    ~~~~

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«Em cada um de nós há um segredo, uma paisagem interior com planícies invioláveis, vales de silêncio e paraísos secretos.»
(Antoine de Saint-Exupéry)