O meu Voo

sexta-feira, julho 13

Não há duas sem três (agulhas)

Este pretende ser um texto com algum humor (ainda que um pouco negro ou amarelo), a pedido da Chic'Ana.

Gosto de costurar, bordar, fazer tricot e crochet – são algumas das minhas habilidades (algumas outras linhas em que também me escrevo, como costumo dizer). E faço-o em horas de lazer; matando tempos já de si mortos, ou fazendo-os reviver; cuidando com carinho do vício das agulhas instalado, até em horas em que o não deveria ser. Um fado. No quarto (des)arrumado; à lareira na cozinha; no sofá da sala; em frente ao computador; em salas de espera; em espera dentro do automóvel; na praia… uma dor! 

E por vezes, num repente, num levanta e senta, num senta e levanta, são agulhas que desaparecem misteriosamente… onde é que está a agulha suplementar? Ainda há pouco a tive na mão! E reviro tudo: a toalha da mesa, os papéis à volta do computador, as gavetas da máquina de costura, o sofá, o estrado e o enxergão, se preciso for; e de agulha nada, sumiu, o estupor! 

Tem de haver sempre uma outra à mão, não vá o trabalho ficar parado, e o vício estragado. Até que chega uma altura em que elas têm de aparecer. Se não estão em lado nenhum, em algum lugar têm de estar, nem que o sítio mais óbvio tenha de ser outra vez batido, revirado, ou até descosido, desforrado, ou todo desmantelado, agora é que vai ser! E viro o sofá de novo de pernas para o ar, e nada! E volta ao seu lugar. Espera! ouvi qualquer coisa a tinir… e pimba deixa cá ver: torna a virar, agora com mais força, e cai uma moeda de um cêntimo, já ganhei o dia! E por uma fresta de lado enfio a mão, pode ser que encontre outro tostão, ah, ah! Achei a danada, mas não a consigo tirar. Vou buscar uma agulha mais grossa com farpa para a puxar. Consegui! Onde está uma tem de estar a outra!... E mexe, remexe, sacode, “se encosta, se enrosca, se abre, se mostra para mim, me agarra, me morde, me arranha”, me pica, cá estás tu, minha sacana! E vão duas, ufa! “Quem é vivo sempre aparece”, diz o povo, e também: “não há duas sem três”. 

E “às três é de vez”: quando na praia se deixa uma agulha de crochet, em cima da toalha, no trabalho que se está a fazer. Vais dar um mergulho, voltas e sentas-te na toalha. Aaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiiii! Espetas a agulha com farpa na nádega. 
– Marido, puxa aqui a agulha! 
O marido, a ficar branco: 
– Como? Isto tem uma farpa, não sai, pode sair carne agarrada, ou algum nervo... não sou capaz! 
– Ai não? deixa cá ver... 
E eu, a quente e a frio, zás! 

Um acto de repentina coragem, que nos valeu uma saída da praia, mais cedo do que o previsto, para ir fazer o curativo. 

Moral da história: Não te preocupes, com as agulha(da)s. Haverá sempre alguma à solta que te espreita em qualquer buraco!

14 Comments:

Pedrasnuas said...

Humor não lhe falta e bem escrito! Gostei !

Bjinhos Bfs

Graça Pires said...

Excelente! O espírito de humos é uma forma de inteligência. Adorei o texto. Lembrei a minha mãe que estava sempre a tricotar… Só não sei se perdia as agulhas…
Uma boa semana.
Um beijo.

CÉU said...

Olá, Fá (és Fá ou Fé)? És as duas coisas, uma és, outra, tens-rs!

Apreciei imenso o teu texto, quer pela semântica (felizmente k não tenho esse vício. "Tás" a ver o desatino, que seria? Estou isenta de Artes Manuais), quer pela morfologia e sintaxe do mesmo. Sabes escrever, é o k é.

Gostei mto deste louco cirandar teu e das agulhas, perdidas, não sei se contigo ou se tu com elas. E nem a canção do Marco Paulo, "Taras e manias", aqui faltou.

O teu marido já dizia mal à sua vida e estava já a ver-se numa possível cirurgia (rs) para remoção das agulhas, e logo naquele sítio. Os homens são uns meninos grandes -rs.

Beijinhos e dias felizes.

Elvira Carvalho said...

Não conhecia este blogue.
Um texto cheio de humor que gostei de ler.
Abraço

Ana Freire said...

Adorei o texto, Fá!...
Ai se me pedissem para puxar a agulha... acho, que reagiria da mesma maneira... ficaria branca... e provavelmente... ainda seria a Fá que me teria de arrastar inanimada para sair da praia... com agulha ou sem agulha... :-))
Eu até para fazer uma análise ao sangue... não garanto, se chego acordada ao fim da mesma... :-P
Deve ser trauma... de outras vidas...
Mais um cantinho que adorei descobrir!... E também eu estou devendo uma história à Chicana... :-P Mas o tempo, não tem deixado... a ver se o faço agora nas férias...
Beijinhos para ambas!
Ana

Jaime Portela said...

Uma pessoa distraída perde tudo. Mas uma pessoa persistente vai encontrando quase tudo o que perde...
Um texto delicioso e divertido. Parabéns.
Não conhecia este teu "arquivo meio morto" cheio de vida. Obrigado por teres deixado link no teu silêncio...
Beijo, querida amiga Fá.

Acordar Sonhando . SOL da Esteva said...

Texto delicioso e muito agradável de ler; tem o fio que as agulhas irão tecer.

Beijo
SOL

Rejane Tazza said...

Leitura ótima, fluiu deliciosamente e gostei do bom humor! beijos, lindo fim de semana! chica

Ana Rodrigues said...

Que leitura agradável e divertida :) Beijinhos

Smareis said...

Um texto delicioso de ler Fá, adorei o humor. Parabéns pelos blog. Todos seus blogs são excelente.

Uma excelente semana, e um mês de setembro cheio de coisas boas.
Um abraço!
Escrevinhados da Vida

DiDa said...

Obrigada pela visita.
(florbytes)
Gostei desta trapalhada de agulhas perdidas. Queremos fazer tudo ao mesmo tempo. Acabamos perdendo tempo com tamanha ansiedade.
Não temos jeito :-)

alfacinha said...

Um texto brilhante e graças ao bom humor muito divertido de ler.
Bjos

Majo Dutra said...

Um tanto arrepiante para mim... kkk...kkk...

Beijinho.
~~~~

Parapeito said...

:) gostei e até me revi nesta " estoria "
também tenho jeito para croché e outras coisas de agulha e linha.
Acidentes também...já fui para o hospital com uma agulha de croché metida dentro de um ouvido :)
lá está, coisas que só acontecem a quem tem mania pelas agulhas e linhas:)
Saio daqui a sorrir e a esperar que neste caso nao haja mais outra vez
Abraço e brisas doces *